terça-feira, 22 de julho de 2008

O amor e o outro

Affonso Romano de Sant'anna

Não amo melhor
nem pior do que ninguém.

Do meu jeito amo
Ora esquisito, ora fogoso,
às vezes aflito
ou ensandecido de gozo.
Já amei até com nojo.

Coisas fabulosas
acontecem-me no leito. Nem sempre
de mim dependem, confesso.
O corpo do outro
é que é sempre surpreendente.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Colaboração de Suzana Dias. Valeu pelo repouso poético-musical em seu muro...

Se ao menos uma vez tudo se aquietasse
se se calassem o talvez e o mais ou menos
e o riso à minha volta...
Se o barulho que fazem meus sentidos
não perturbasse mais minha vigília...

Então, num pensamento multifário
poderia eu pensar-te até aos teus limites
e possuir-te (só o tempo de um sorriso)
e oferecer-te a vida inteira, como
um agradecimento
.

(Rainer Maria Rilke)

domingo, 20 de julho de 2008

Norman Brown

O que está sempre

falando

Silenciosamente

é o corpo.

sábado, 19 de julho de 2008

20/07 - Dia Internacional da Amizade

Martha Medeiros - Amizade

Dei pra me emocionar cada vez que falo dos amigos. Deve ser a idade, dizem que a gente fica mais sentimental. Mas é fato: quando penso no que tenho de mais valioso, os amigos aparecem em pé de igualdade com o resto da família. E quando ouço pessoas dizendo que amigo, mas amigo meeeesmo, a gente só tem dois ou três, empino o peito e fico até meio besta de tanto orgulho: eu tenho muito mais do que dois ou três. São uma cambada. Não é privilégio meu, qualquer pessoa poderia ter tantos assim, mas quem se dedica?Fulano é meu amigo, Sicrana é minha amiga. É nada. São conhecidos. Gente que cumprimentamos na rua, falamos rapidamente numa festa, de repente sabemos até uma fofoca pesada sobre eles, mas amigos? Nem perto. Alguns até chegaram a ser, mas não são mais por absoluta falta de cuidado de ambas as partes.Amizade não é só empatia, é cultivo. Exige tempo, disposição. E o mais importante: o carinho não precisa - nem deve - vir acompanhado de um motivo. As pessoas se falam basicamente nos aniversários, no Natal ou para pedir um favor - tem que haver alguma razão prática ou festiva para o contato. Pois para saber a diferença entre um amigo ocasional e um amigo de verdade, basta tirar a razão de cena. Você não precisa de uma razão, basta sentir a falta da pessoa. E, estando juntos, tratarem-se bem. Difícil exemplificar o que é tratar bem. Se são amigos mesmo, não precisam nem falar, podem caminhar lado a lado em silêncio. Não é preciso troca de elogios constantes, podem até pegar no pé um do outro, brigar talvez (e porque não!?) delicadamente. Não é preciso manifestações constantes de carinho, podem dizer verdades duras, às vezes elas são necessárias. Mas há sempre algo sublime no ar entre dois amigos de verdade. Talvez respeito seja a palavra. Afeto, certamente. Cumplicidade? Mais do que cumplicidade. Sintonia?Oh, céus! Santa pieguice, Batman! Amor? Esta lengalenga de novo? Sério, só mesmo amando um amigo para permitir que ele se atire no seu sofá e chore todas as dores dele sem que você se incomode nem um pingo com isso. Só mesmo amando para você confiar a ele o seu próprio inferno. E para não invejarem as vitórias um do outro. Por amor, você empresta suas coisas, dá o seu tempo, é honesto nas suas respostas, cuida para não ofender, abraça causas que não são suas, entra numas roubadas, compreende alguns sumiços - mas liga quando o sumiço é exagerado. Tudo isso é amizade com trato. Se amigos assim entrarem na sua vida, não deixe que sumam. Porém, a maioria das pessoas não só deixa como contribui para que os amigos evaporem. Ignora os mecanismos de manutenção. Acha que amizade é algo que vem pronto e que é da sua natureza ser constante, sem precisar que a gente dê uma mãozinha. E aí um dia abrimos a mãozinha e não conseguimos contar nos dedos nem dois amigos pra valer. E ainda argumentamos que solidão é um sintoma destes dias de hoje, tão emergenciais, tão individualistas. Nada disso. A solidão é apenas um sintoma do nosso descaso.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

19/07 - Dia Nacional do Futebol

Pode faltar tudo neste país, menos a emoção da bola rolando nos estádios. O futebol, que hoje é um dos esportes mais populares do mundo, nasceu na Inglaterra em 1863, e logo chegou ao Brasil, em 1894, pelas mãos do paulistano Charles Miller. Chegou elitista, racista e excludente. Era um esporte de brancos, de ricos, praticado em clubes fechados ou em colégios seletos. Mas não demorou para que caísse no gosto popular, misturando o gingado do negro à força do branco. Está formado aí o nosso futebol, responsável pelo reconhecimento do Brasil no exterior, e que tanta alegria e satisfação proporciona aos brasileiros "pentacampeões".

Em um dia como esse, em 19/07/1893, nascia Vladimir Maiakovski, o maior poeta russo moderno.

E Então Que Quereis?...

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

Curta - Rodolfo Caruso

Sem pensar nasce um sorriso,

Independentemente do lugar.

Duas mentes; o instante,

Simplesmente a partir de um olhar.

Primitivamente o beijo,

Delicadamente invade um verbo:

Namorar.

Aí tem

Martha Medeiros

As coisas são como são. Se alguém diz que está calmo, é porque está calmo. Se alguém diz que te ama, é porque te ama. Se alguém diz que não vai poder sair à noite porque precisa estudar, está explicado. Mas a gente não escuta só as palavras: a gente ouve também os sinais.

Ele telefonou na hora que disse que ia ligar, mas estava frio como um iglu. Você falava, falava, e ele quieto, monossilábico. Até que você o coloca contra a parede: "O que é que está havendo?". "Nada, tô na minha, só isso." Só isso???? Aí tem.

Ele telefonou na hora que disse que ia ligar, mas estava exaltado demais. Não parava de tagarelar. Um entusiasmo fora do comum. Você pergunta à queima-roupa: "Que alegria é essa?" "Ué, tô feliz, só isso". Só isso????? Aí tem.

Os tais sinais. Ansiedade fora de hora, mudez estranha, olhar perdido, mudança no jeito de se vestir, olheiras e bocejos de quem dormiu pouco à noite: aí tem. Somos doutoras em traduzir gestos, silêncios e atitudes incomuns. Se ele está calado demais, é porque está pensando na melhor maneira de nos dar uma má notícia. Se está esfuziante demais, é porque andou rolando novidades que você não está sabendo. Se ele está carinhoso demais, é porque não quer que você perceba que está com a cabeça em outra. Se manda flores, é porque está querendo que a gente facilite alguma coisa pra ele. Se vai viajar com os amigos, é porque não nos ama mais. Se parou de fumar, é uma promessa que ele não contou pra você. Enfim, o cara não pode respirar diferente que aí tem.

Às vezes não tem. O cara pode estar calado porque leu um troço que mexeu com ele, ou está falando muito porque o time dele venceu. Pode estar mais carinhoso porque conversou sobre isso na terapia e pode estar mais produzido porque teve um aumento de salário. Por que tudo o que eles fazem tem que ser um recado pra gente?

É uma generalização, mas as mulheres costumam ser mais inseguras que os homens no quesito relacionamento. Qualquer mudança de rota nos deixa em estado de alerta, qualquer outra mulher que cruze o caminho dele pode ser uma concorrente, qualquer rispidez não justificada pode ser um cartão amarelo. O que ele diz importa menos do que sua conduta. Pobres homens. Se não estão babando por nós, se tiram o dia para meditar ou para assistir um jogo de vôlei na tevê sem avisar com duas semanas de antecedência, danou-se: aí tem.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Em 18/07/1987 morreu Gilberto Freyre, escritor, sociólogo e antropólogo pernambucano.

Você sabia?


Nunca manuseou aparelhos eletrônicos. Não sabia ligar sequer uma televisão. Todas as obras foram escritas a bico-de-pena, como o mais extenso de seus livros, "Ordem e progresso", de 793 páginas.


OBRA-PRIMA:


• Casa grande e senzala (1933)

• Sobrados e mocambos (1936)

• Açúcar (1939)

• Uma cultura ameaçada: a luso-brasileira (1940)

• Ordem e progresso (1959)

18/07 - Nelson Mandela faz aniversário hoje!

Primeiro presidente negro da República da África do Sul, líder do Congresso Nacional Africano (CNA). Símbolo de resitência negra à ocupação branca na África do Sul, onde fora implantado desde 1911, a política de segregação racial chamada apartheid ("separação" em africâner). Entrou para o CNA em 1942, tomando parte, cinco anos depois, da liga jovem do movimento que promovia boicotes, greves, desobediência civil e não cooperação com o regime de discriminação que se tornou oficial após a vitória do Partido Nacional, em 1948. Organizou vários planos na área educacional voltado para os membros mais pobres. Suas atividades contra exploração do trabalho lhe renderam muitos anos de prisão e banimento. Em 1960, o CNA cai na clandestinidade, depois do Massacre de Sharpeville, no qual 67 negros que participavam de uma manifestação foram mortos pela polícia. Nessa época, Mandela forma o grupo de guerrilha Umkhonto we Sizwe ("Lança da Nação"), sendo preso em 62 e condenado a cinco anos de prisão.


“Tenho lutado contra a dominação branca e contra a dominação negra. Tenho acalentado o ideal de uma sociedade livre e democrática, na qual todas as pessoas vivam em harmonia e com oportunidades iguais.É um ideal pelo qual espero viver e que espero alcançar. Mas, se for necessário, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer"·

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Corpo adentro

Marina Colasanti

Teu corpo é canoa

em que desço

vida abaixo

morte acima

procurando o naufrágio

me entregando à deriva.


Teu corpo é casulo

de infinitas sedas

onde fio

me afio e enfio

invasor recebido

com licores.


Teu corpo é pele exata para o meu

pena de garça

brilho de romã

aurora boreal

do longo inverno.