sábado, 27 de fevereiro de 2010

Tom Zé

Passo a passo
Braço a braço
Um sorriso, um silêncio
Sete dias, oito horas, dezenove, vim te ver
No teu colo
Me consolo
No teu braço, travesseiro
No teu riso, me desperto
No teu canto, adormeço
Teu vestido era verde
Na verdade salmon
De saudade era claro
Claridade por mim
Na ternura do vento
Na ventura do branco
Na brancura do lago
Na largura do céu
Não cabe um sonho
Nós dois




sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

José Luís Peixoto

Ao escrever tinha vivido. Eram trinta páginas que eram o meu amor todo e a minha esperança. Sentado à escrivaninha onde os anos passavam, olhávamo-nos muito: ela dentro de mim e o meu olhar dentro de mim, junto dela. O meu braço tremia e, com a esferográfica, escrevia em folhas brancas cada uma das palavras que a diziam. Ela sentia as palavras a tocarem-na. Ela fechava lentamente os olhos. E o tempo em que mantinha as pálpebras fechadas era tocar-me, era tocar o sol e, na pele, absorver toda a sua luz. Eu, que não podia ter nos braços aquela vida interior que era a minha vida toda, que não podia dar-lhe a mão, que não podia sequer passar-lhe os dedos devagar pelo rosto, fazia tudo isso escrevendo. Nas palavras escritas tocávamo-nos realmente. Como duas pessoas sobre a terra. Nas palavras, existiam os nossos olhares entenecidos. Dentro de cada uma das palavras, existiam mil palavras, e também cada uma dessas mil palavras tinha dentro de si mil palavras. E mesmo essas palavras que existiam dentro de outras palavras eram enormes, porque também elas tinham dentro de si mil palavras que tinham dentro de si mil palavras. Nas palavras escritas éramos possíveis. O nosso amor. Tudo. O mundo. Por isso, aquelas eram as trinta páginas mais importantes da minha vida.



sábado, 20 de fevereiro de 2010

Dinho Ouro Preto

É tão certo quanto calor do fogo
Eu já não tenho escolha
E participo do seu jogo, participo!

Não consigo dizer se é bom ou mal
Assim como o ar me parece vital
Onde quer que eu vá, o que quer que eu faça
Sem você não tem graça!