Aos domingos, os pássaros são mais livres. Exibem-se em voltas no ar porque sabem que as pessoas reparam mais neles. Aos domingos, o barulho das ruas é diferente: as vozes, despreocupadas, assentam sobre o espaço vazio deixado pelas vozes ásperas dos dias de semana. Aquele era um domingo assim, era um domingo domingo, mas eu despertava de um mundo onde não havia domingos e, para mim, aquele dia era-me estranho, da mesma maneira que me teria sido estranho qualquer outro dia.
sábado, 18 de abril de 2009
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Daniel Galera
No entanto ela me encarava sorrindo, com os mesmos olhos que eu encontrava nas manhãs, um olhar que nos conectava e expressava que éramos parte um do outro. É difícil imaginar sensação de maior conforto e serenidade que esta, que surge da ilusão elaborada de que fazemos parte da vida de uma pessoa a ponto de estarmos verdadeiramente unidos, de tudo estar bem se o outro estiver por perto, se apenas nos for dada a chance de saciar os desejos e interesses um do outro, de tolerar um ao outro quando sacrifícios forem necessários e deixar que todo o resto se foda, se destrua e morra, porque não haverá problema.
Raduan Nassar - Lavoura Arcaica
(...) não se questiona na aresta de um instante o destino dos nossos passos. Bastava que eu soubesse que o instante que passa, passa definitivamente, e foi numa vertigem que me estirei queimando ao lado dela, me joguei inteiro numa só flecha, tinha veneno na ponta desta haste e, embalando nos braços a decisão de não mais adiar a vida, agarrei-lhe a mão num ímpeto ousado. Você pra mim
É incrível, a nossa história, sem nenhuma prova concreta.
Só palavras, que voam com o vento
imagens que eu trago na memória
um segredo inviolável
de uma paixão inflamável
mas que nunca, nunca incendeia
nem em noite de lua cheia....
às vezes,
fico dias inteiros, imaginando e pensando em você
e eu fico com tantas saudades
que até parece que eu posso morrer
pode acreditar em mim
você me olha
eu digo sim
mas eu nem sei se sofro assim
o que eu quero é você pra mim.
Mãos atadas
Cada maldito espaço vazio no tempo perdido
faz de você um quase inatingível objetivo...
traçado inesperadamente pelo querer repentino.
Será assim até que o contrário meu coração sinta.
Essa inundação de espasmos,
relâmpagos nada acanhados...
fez de mim, alma desprotegida,
habitante de corpo febril.
Como pode uma alma desesperada ser acasalada
pelo corpo em chamas sem se desfazer em larvas?
Insólita vivência, onde permeia meu querer, meu não poder...
Enquanto dói, de minuto em minuto, vejo a água dos meus olhos escorrendo.
Sigo vencendo os dias atolados em um oco...
esperando ser preenchido pela presença imaginada do cheiro.
Vago tecendo, nas horas, as esperanças remanescentes da pouca fé que tenho...
almejando encher meus olhos da cor dos seus a olhar-me.
Atravesso meu vácuo estar, contando pérolas da vontade quente...
Mas...
se... por fim, chegar a hora H...
vou entrega-lhe meu sorrir expansivo na bandeja do meu amor abrigo do seu...
andamos, assim, de mãos atadas...
esperanças nada exageradas,
amor imenso, submerso no vago abraço não dado.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
No conforto dos teus braços
Rita Ribeiro
Oito horas de vôo num ConcordeCinco dias num barco mar adentroSete noites dormindo ao relentoSete ciganas lendo a minha sorteQuatro dias, em pé, no trem da morte Vinte léguas montado num jumentoSete mil flores no meu pensamentoE eu trilhando os últimos espaçosPra ficar no conforto dos teus braçosQualquer coisa no mundo eu enfrento... Valentia de pai ou de irmãoConcorrência com o astro do momento Temporal, tempestade, chuva e vento Holocausto, hecatombe e tufãoDesemprego, palestra e sermãoTititi, coqueluche, casamentoPé de ponte, mansão, apartamentoPaparazzi, sucessos e fracassosPra ficar no conforto dos teus braçosQualquer coisa no mundo eu enfrento... Ladroíce, mutreta, malandragemÁlcool, droga, barato, passamentoAmnésia, larica, esquecimentoRoubalheira e má politicagemCabaré, palacete, sacanagemFome, greve, motim, acampamentoConfusão, batalhão, fuzilamentoReclusão, solidão, sonho aos pedaçosPra ficar no conforto dos teus braçosQualquer coisa no mundo eu enfrento...
sábado, 4 de abril de 2009
Minha fonte
Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh’alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.
Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.
Amo-te com o doer das velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.
Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
A necessidade e o acaso
"A necessidade cria o amor ou ele existe? A questão é delicada e conduz a uma resposta que confunde mais do que explica. Sim, a necessidade cria o amor. Sim, o amor existe.
Na verdade, fomos condicionados pela sociedade e seus contos de fada a acreditar que o amor é uma coisa que acontece quando menos se espera, que domina nosso coração, que interrompe nossos neurônios e nos captura para uma vida de palpitações, suspiros e lágrimas. Que o amor não tem idade, não tem hora pra chegar, não tem escapatória. Que o amor é lindo, poderoso e absoluto, que vence todos os preconceitos, que vence a nossa resistência e ceticismo, que é transformador e vital. Esse amor existe e ai de quem se atrever a questioná-lo.
Rendo-me, senhores. Esse amor existe mesmo, é invasivo e muitas vezes perverso, mas também pode ser discreto, sereno e indolor. Costuma acontecer ao menos uma vez na vida de todo ser humano, ou três vezes, aos 17, 35 e 58 anos, ou pode acontecer todo final de semana, se for o caso de um coração insaciável. Mas também pode acontecer nunquinha, e aí a outra verdade impera.
Sim, a necessidade também cria o amor. A pessoa nasce idealizando um parceiro para dividir a janta e as agruras, a cama e as contas, os pensamentos e os filhos. Passam-se os anos e esse amor não sinaliza, não apresenta-se, e o relógio segue marcando as horas, lembrando que o tempo voa. Esse ser solitário começa a amar menos a si mesmo, pelo pouco alvoroço que provoca a sua volta, e a baixa estima impede a passagem de quem quer se aproximar. É um círculo vicioso que não chega a ser raro. Qual é a solução: solidão ou imaginação?
O nosso amor a gente inventa, cantou Cazuza, no auge da sabedoria. A necessidade faz quem é feio parecer um deus, quem é tímido parecer um sábio, quem é louco parecer um gênio. A necessidade nos torna menos críticos, mais tolerantes, menos exigentes, mais criativos. A necessidade nos torna condescendentes, bem-humorados, otimistas. Se a sorte não acenou com um amor caído dos céus, ao menos temos afeto de sobra e bom poder de adaptação: elegemos como grande amor um amor de tamanho médio. O coração também sobrevive com paixões inventadas, e não raro essas paixões surpreendem o inventor.
O amor pode ser casual ou intencional. Se nos faz feliz, é amor igual."
sábado, 21 de março de 2009
sexta-feira, 20 de março de 2009
Repouso - Adalgisa Nery
Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas entreabertas.
Dá-me tua mão e eu te levarei a gozar a alegria do solo agradecido,
Te darei por leito a terra amiga e repousarei tua cabeça envelhecida Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei, apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito amada.
domingo, 8 de março de 2009
DIA INTERNACIONAL DA MULHER
E O ESPINHO?
Sou desconfiado com o Dia Internacional da Mulher. Como sou cético com o Dia dos Namorados. Nessas datas, esquecemos de pensar para convencionar gestos e gastos. É um cuidado protocolar para não magoar a corrente, a enxurrada de manifestações, os compromissos festivos. Um dia de rosa deslocada dos espinhos. E qual é o espinho? Continuar comparando a mulher com o que o homem faz ou deixa de fazer. A mulher ganhou terreno no trabalho e assume cargos antes dirigidos por homens. A mulher conduz ônibus. A mulher joga futebol. A mulher apita jogos. A mulher comenta esportes. Só falta correr na Fórmula 1? Existe o hábito machista de dizer que a mulher se emancipou ou evoluiu tendo como referência a ocupação dela em atividades ditas masculinas, que na verdade nunca foram masculinas Ser dona de uma empresa e ser dona de um estádio não aumentam a cotação da mulher. Mulher não tem cotação, porém valor. Sempre foi política mesmo quando não podia se candidatar. Não depende de uma cota para ser votada. De uma chance para ser vista. De um amor para ser compreendida. De um emprego para dizer sua opinião. A mulher é incomparável desde sempre. Mania de moldar à mulher por uma realidade masculina. E o que elas fizeram antes dos homens, não conta? E o que os homens fizeram a partir dela, não conta? Não sei, não sei, é uma chatice tremenda falar de gênero quando não somos capazes de mudar a própria rotina intelectual. Mulher tem poder que a autoridade masculina demorará a entender. Poder e autoridade são distintos. Poder é o que se conquista naturalmente, autoridade é uma adaptação social, provisória e efêmera. Meus filhos não me procuram quando estão doentes. Procuram a mãe. A confiança que emana dela vem do cuidadoso detalhe, a sinfonia corrigida à mão, o abraço que protege e conforta. A mulher oferece a intimidade da percepção, a capacidade periférica de enxergar do lado de dentro para fora. É atenciosa com o que não oferece utilidade. O homem importa-se com o domínio, não com a intimidade. Quantas vezes já vi um homem apresentar orgulhoso sua namorada como uma roupa exclusiva e cara para provocar inveja? A mulher tem a necessidade de ser feliz, o homem parece que tem a obrigação de ser feliz. Felicidade não se herda.
(Fabrício Carpinejar)
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Demônio - Nietzsche
E se um dia um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse:
" Esta vida, assim como a vives e sempre viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes, não haverá nela nada de novo!
Cada dor, cada pensamento, tudo que há de pequeno em tua vida há de retornar. Tudo, na mesma ordem e seqüência. E, do mesmo modo, esse instante e eu próprio: o demônio. O eterno relógio da existência reiniciará outra vez a contagem do seu tempo, e do tempo das tuas desgraças.”
Não te lançarias ao chão rangendo os dentes e amaldiçoando o demônio?
Não, não. Responderias medrosamente que nunca te disseram algo mais divino. Diga, nunca te disseram algo mais divino?
Mentirias que queres para sempre a tua própria desgraça? Vê bem, se disseres que sim, estarás apenas piorando a eternidade.
Trechos do manifesto da primeira Semana de Arte Moderna da Periferia - Sérgio Vaz
Dos becos da periferia há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. A voz que galopa contra o passado pelo futuro de todos. Pela arte e pela cultura no subúrbio, pela universidade para a diversidade. Contra a arte patrocinada pelos que a corrompem. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico. A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza. Sejamos, pois, a favor da poesia periférica que brota na porta do bar. A favor do teatro que não venha do ter ou não ter. A favor do cinema real que não iluda. Das artes plásticas que querem substituir os barracos de madeira. Da dança que desafoga. Da música que não embala os adormecidos. Da literatura das ruas despertando nas calçadas. Pela periferia unida, no centro de todas as coisas. Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais de que a arte vigente não fala. Contra a surdez e a mudez artística. Pelo artista que não compactua com a mediocridade. Por um artista a serviço da comunidade, do país, um artista que por si só exercita a revolução. Contra a arte domingueira que a televisão defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona. Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso ao que há de bom na produção cultural. Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. Contra um sistema que precisa de carrascos e vítimas. Contra os covardes e eruditos de aquário. Contra o artista serviçal escravo da vaidade. Contra os vampiros das verbas públicas para a arte privada. A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.Enfim, por uma periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor. É tudo nosso! Miami pra eles? Me ame pra nós.
