domingo, 8 de maio de 2011

José Luís Peixoto


A minha mãe era os seus olhos a brilharem uma cor de água profunda. Os seus olhos refletiam os meus olhos. Nesse reflexo estava aquilo que ambos sabíamos: as nossas certezas: o tempo, as palavras que dissemos quase sem perceber que eram tão importantes. Naquele momento, não existiu mais nada. A minha mãe olhava-me, e eu soube que a minha mãe me tinha olhado assim quando me vira pela primeira vez. Acabado de sair de dentro dela, foi com aqueles olhos que a minha mãe me viu. Ainda vermelho de sangue a cobrir-me a pele, sangue ainda vivo, eu pequeno, nos braços da minha mãe, e aqueles olhos verdadeiros a verem-me completamente. Eu pequeno, e aqueles olhos a saberem tudo sobre mim. Eu acabado de nascer, e aqueles olhos a que pertencerei sempre porque a eles pertenço desde o início. E ali, no quarto que naquele instante era o único quarto do mundo, os olhos da minha mãe refletiam os meus olhos. Eu via a minha mãe a ver-me a vê-la. Éramos, cada um de nós, um espelho que refletia o espaço infinito do interior de outro espelho. Entre nós, não havia distância porque éramos atravessados um pelo outro. Fazíamos parte de um lugar infinito que era igual em cada um de nós. Não éramos fronteiras dentro desse lugar, porque esse lugar não tinha fronteiras. Esse lugar era infinito. Esse lugar era o amor nos nossos olhos.

Um comentário:

Nathy Costa disse...

http://paraneura.blogspot.com/ gostei do seu blog parabens ta ai o meu se gostar me diga!